Sou brasileiro e por isso não gosto de falar mal do meu povo. Vocês jamais vão me ouvir dizer que somos uma praga virtual como dizem.
Todavia, não posso deixar de compartilhar o meu estranhamento diante do comportamento de alguns usuários e leitores de blogs, além de sites como o Orkut, Facebook e Twitter. Hoje, creio eu, podemos nos encaixar na categoria de cri-cri virtuais, ou seja, somos chatos e nos comportamos de maneira estranha.
Faça um teste: escolha um serviço qualquer e adicione 20 contatos, sendo 10 do Brasil e 10 de um país qualquer. Os estrangeiros vão estranhar, porém, vão aceitar o seu convite.
Tentarão transpor a barreira do “hi”, saber um pouco de você usando um tradutor de web do inglês para o espanhol, entender sua origem e, se a coisa for complicada, nunca mais vão falar contigo, mas você deverá permanecer lá na rede de contatos do gringo até que você decida excluí-lo.
Agora os brasileiros não demonstram tanta cordialidade e paciência.
Não adiciono desconhecidos
Afinidades. Este é o critério usado comumente nas redes sociais para buscar novos contatos, mas isso quase não funciona nas bandas de cá. A palavra “amigo” é tão levada ao pé da letra por nós que fica difícil puxar um assunto.
É muito comum ver em perfis os dizeres “só adiciono conhecidos”, mas pense bem: o que seria das redes sociais se os círculos de amizade fossem tão restritos? Já vivemos em um período em que as coisas eram mais limitadas e hoje não usufruímos do potencial da ferramenta. Por isso, deixamos de conhecer pessoas que poderiam nos acrescentar algo, revolucionar nossas idéias e apresentar novidades que muito dos nossos amigos nem sabem.
Você me conhece de onde?
Esse é um questionamento muito comum entre os brasileiros. Antes de aceitar qualquer convite eles fazem essa celebre pergunta e se a resposta for negativa há um grande risco do convite ser declinado.
Em primeiro lugar, acho uma maneira deselegante de tratar uma pessoa. Os cumprimentos rotineiros podem ser usados perfeitamente na internet. É recomendável também uma leitura do perfil de quem está te convidando porque lá é muito provável que você encontre informações que podem sanar sua dúvida com relação ao rosto desconhecido no avatar.
E não, não se justifica tratar mal a pessoa pelo fato de não ter se apresentado antes. Digo isso porque muitas vezes com uma boa apresentação ou não a recusa é quase certa.
Veja bem, fiz o teste e adicionei pessoas no Orkut com a seguinte apresentação: Olá, meu nome é Márcio Lima, sou de São Paulo e tenho interesse de aumentar minha rede de contatos.
O resultado dessa experiência foi o meu perfil com a função de adicionar contatos desativada por dias porque certamente me denunciaram como spam.
O mais embaraçoso é maneira que as pessoas encaram o recurso de “últimos visitantes no Orkut”. Se o seu nome aparecer no perfil de algum desconhecido a chance de você ser indagado sobre a visita é grande. A paranóia dos que se sentem invadidos é tão grande que leva as pessoas a atitudes grosseiras e lavagens de roupa suja por mensagens.
Pura ignorância, me permitam observar, porque todos os perfis são públicos em uma rede social e se alguém esteve em seu perfil é porque de alguma maneira você chamou a atenção. De onde eu venho chamar a atenção é algo muito positivo.
Sem comentários ou cem comentários?
O que vejo em alguns blogs é ainda pior. Alguns leitores estão pouco interessados em ler o conteúdo do post, mas sim em entrar no raking dos 10 primeiros comentários. É muito comum ver um material que acabou de entrar no ar com feedback como “primeiro” ou “fui o segundo”.
Acho que esse tipo de coisa não faz o menor sentido e não estou dizendo isso porque me falta o humor, mas sim porque o que falta é o conteúdo, uma reflexão na hora dizer algo consistente com relação a um artigo que levou tempo para ser redigido.
Nada além do que é meu é mais importante
Navego muito por sites como Reddit e Digg e observo que as pessoas indicam e votam os materiais porque são realmente bons. Os brasileiros, ao contrário, divulgam seu próprio material e nada além. Querem ser o mais lido, o mais votado, mas sequer lêem o post do colega de web e não se dão o trabalho de votar.
Quando votam fazem esperando uma retribuição como se a questão se trata-se de um imenso favor, e muitas vezes fazem isso sem ler. Quando comentam tratam logo de abordar assuntos como parcerias sendo que é de bom tom tratar disso por meio de email ou formulário de contato apropriado.
Blogueiros x Diretórios de Blog
Para o blogueiro brasileiro a função do diretório de blogs é encaminhar uma boa audiência, aumentar o tráfego e aumentar o pagerank. O pensamento está correto, é adequado porque estamos falando mesmo de uma ferramenta de divulgação, entretanto, a web não é uma via de mão única e saliente-se que trabalho colaborativo garante bons resultados.
Vamos tomar o Digg como exemplo. Trata-se de um dos maiores diretórios de blogs e artigos, mas não há um só blog que não utilize suas ferramentas. Me corrijam se meu pensamento estiver incorreto, mas o fluxo de internautas que vão dos blogs para o diretório é novamente redistribuído, garantindo assim um funcionamento realmente orgânico para a ferramenta, revertendo assim em uma boa visitação para ambos os lados.
Muitos dizem que ainda não surgiu um site semelhante ao do Kevin Rose por essas bandas, mas até que ponto a blogosfera brasileira tem interesse e está preparada para tal advento?
Twitter, o chat do UOL e a fogueira das vaidades
Conheço o Twitter desde 2007 e nos primórdios o microblog se tornou jardim de alguns blogueiros. Eles se enalteciam mutuamente por meio de post com raking de número de seguidores.
Hoje a cena é outra graças as celebridades dos meios de comunicação, responsáveis pelo aumento da comunidade brasileira no twitter, e anônimos que conseguem fazer um “barulho”de qualidade. Ainda não sei se essa mudança de cenário é boa ou ruim para a rede, mas algumas situações inusitadas se tornaram comuns.
“Ninguém fala comigo” é a reclamação mais comum entre os novos adeptos e, para quebrar o gelo, tentam as velhas técnicas populares em salas de bate papo. O resultado disso é um TC de onde entre um RT ou outro.
Mas isso nem é o pior, não estou reclamado, só acho estranho e engraçado ao mesmo tempo. O ruim mesmo são as pessoas buscando serem notadas pelas celebridades, a rixa entre os twiteiros emergentes e os matutos que não suportam dividir a atenção da audiência. Isso sem contar o português ruim e a falta de bom senso que se transformam em declarações desagradáveis.
Para concluir…
Exagerado ou não é assim que enxergo o brasileiro na web. Não estou generalizando, longe de mim fazer tal exercício, mas acredito que boa parte das pessoas já se depararam com alguma situação semelhante a todas descritas neste artigo.
Acho impossível que este quadro mude, não vamos nos tornar mais gentis, interessados e dispostos a interagir de uma maneira apropriada, mas vale a pena refletir um pouco sobre nossa conduta e, de quebra, rir um pouco do que nos tornamos. Chatos ou não estamos na web. Paciência…